A Arma Escarlate (Renata Ventura)

10/11/2012 04:41

VENTURA, Renata. A Arma Escarlate. São Paulo: Novo Século, 2011.

Confesso que fiquei cheio de dedos para ler o livro, pois trata-se de literatura fantástica e isto não  é o meu forte. Neste sentido sou bem mais convencional, tradicional, pois o primeiro livro que li (fora os chamados paradidáticos, os quais sempre li bastante) foi Frei Luís de Souza de Almeida Garret, e o pior de tudo é que adorei o livro.

Conheço pessoalmente a autora faz pelo menos 6 anos, quando éramos dois goiabas sem muita coisa na cabeça, de modo que transpunha a autora para o livro (e a Renatinha é sonhadora, viaaaaaaaaaja) e assim tinha ainda mais resistência para pensar em ler o livro. Não tinha a menor vontade de ler por preconceito, e tenho que assumir isto. "Como pode uma conhecida minha, da minha idade para menos, escrever alguma coisa legal e que preste? Impossível, aposto que vem goiabice!". Para mim era conto do vigário, mais um livro editado para aborrescentes virgens e que depois do centésimo leitor - no máximo - os livros serviriam de porta-poeira na estante. Até que resolvi olhar a sinopse, e aí acabei tendo uma primeira impressão surpreendente:

"O ano é 1997. Em meio a um intenso tiroteio, durante uma das épocas mais sangrentas da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, um menino de 13 anos descobre que é bruxo. Jurado de morte pelos chefes do tráfico, Hugo foge com apenas um objetivo em mente: aprender magia o suficiente para voltar e enfrentar o bandido que ameaça sua família. este pocsso de aprendizado, no entato, ele pode descobrir o quanto de bandido há dento dele mesmo."

Taí, gostei, e acabei comprando. Mas ainda jurava que seria uma mera 'brasileirização' de Harry Potter, inclusive com quatro equipes disputando ginganas e tudo. Porém, no decorrer do livro, vi que consistia em algo totalmente diferente apesar da influência inquestionável. Do mesmo jeito que a Itália se apoderou do macarrão chinês e do tomate americano para criar um produto de identidade italiana, a autora se apoderou das ideias de Rowling e da realidade brasileira para fazer uma coisa dela, muito dela, apesar dos personagens terem vontade própria de vez em quando. Convém dizer que, antes de tudo, que Renata fez trabalho de campo no próprio Morro Santa Marta (para quem é de fora do Rio: sim, ele existe), conversou com moradores de lá, e deu um cenário real ao livro. Em segundo lugar, o texto do livro é bem simples, de modo que uma criança consiga ler, e nós mais crescidos também. Em terceiro lugar, o livro considera as macrorregiões do IBGE pois, pelas dimensões continentais do Brasil seria inviável uma Hogwarts para o país todo, portanto a Korkovado é uma escola de bruxos para os sudestinos - apesar de que as menções às outras regiões, estados e países são feitas ao longo da leitura abordando mudanças de professores e intercâmbio discente. O próprio resgate ao nosso folclore é bastante presente, o que faz a leitura ser bastante adorável aos nossos egos brasucas, sem exageros a la Policarpo Quaresma.

A primeira coisa que percebemos ao abrirmos o livo é o narrador, que é solidário ao Hugo mas nem sempre fecha com as opiniões da escritora, e chega a ser engraçado isso. A segunda é o próprio Hugo, dotado de uma esperteza nata intrínseca do favelado carioca e uma maturidade que só as situações difíceis promovem, o que faz ele se aproximar de quatro 'veteranos' bem mais velhos. Mas claro, ele nem sempre dá todas dentro, e aí entra em várias enrascadas. A terceira é o olhar social da escritora que, como jornalista, tem uma abordagem bem diferente das utilizadas pelos cientistas sociais, cientistas políticos, geógrafos, historiadores, e assistentes sociais.

Conflitos entre classes sociais, "berço" e a dualidade "bruxo x não bruxo", miríade de religiões, diretores e professores que não se bicam, gestores fazendo gambiarras para mascarar estatísticas, estudantes colocando a mão na massa quanto ao conteúdo na falta de um professor, ética ao lecionar, bullying, tráfico de drogas, transposição dos problemas do mundo não-bruxo para a Escola de Bruxaria do Korkovado, incompetência de professores, migração, irmãos de pais diferentes, conflito "favela x asfalto", estereótipos regionais, problemas de barreiras linguísticas, intercâmbio acadêmico, e muitos outros temas são abordados no livro. Tudo feito numa narração gostosa de ser lida.

Gostei de alguns personagens, não gostei de outros, e achei uns "não fedem nem cheiram", inclusive me decepcionei com alguns e falei com a autora: ela me confidenciou alguns de seus planos mas não posso contar para ninguém [risada maléfica - MUAHAHAHAHAHAHA]. Muitas lacunas também estão presentes no livro, o que faz algumas pessoas se indignarem, mas cabe dizer que a intenção é que se trate de uma série, e não um livro "filho único de mãe solteira". Portanto, muitas águas rolarão. Também não colocarei minhas dúvidas aqui para não cortar as asas da imaginação de ninguém, e nem por ventura (com o perdão do trocadilho) mudar qualquer história na cabeça da autora, mas adianto que pensei muito na avó do Hugo, pois ela é uma pessoa enigmática que fala pouco e diz muito, se é que vocês me entendem, então pra mim debaixo desse angu tem carne.

Não sei quais são as expectativas dos fãs de Harry Potter. Mas quanto a mim, um simples leitor generalista, devorei o livro e estou esperando pelo próximo. Para quem quiser ler um livro de bom gosto, que possa ser devorado em pouquíssimo tempo apesar de sua espessura, A Arma Escarlate é uma excelente pedida.


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