Armas, Germes e Aço (Jared Diamond)

30/11/2012 19:46

DIAMOND, J. Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro: Record, 2003.

Taí um livro que escutei falar por acaso, há pouco tempo, graças a um documentário. Ao lê-lo, julguei que ele deveria ser leitura obrigatória para entender a sociedade hoje, pois abarca Geografia da População, Biogeografia, Zoologia, Arqueologia, História, Epidemiologia, etc., com uma teoria ao meu ver inovadora para que entendamos a atual economia: explicar - de uma maneira nada racista - por quê os povos eurasianos conquistaram a supremacia (econômica, militar, etc) diante de povos americanos, australianos e africanos. O autor, que é biólogo evolucionista, voltou no tempo (metaforicamente, é claro!) desde os tempos pré-históricos para procurar a respostas que tanto o afligiam, e as encontrou: armas, germes, e aço; representando fundamentos militares, epidemiológicos, e tecnológicos respectivamente.

Em resumo, o autor fala que a maioria dos cereais que hoje utilizamos em nossa dieta (trigo, cevada, etc) era nativo do Oriente Médio quando este ainda não era deserto. Este, pode se espalhar através do plantio, por toda a Europa, tendo em vista as latitudes parecidas. Plantar estes cereais, simplesmente dispersando sementes, é muito mais fácil e produtivo - e menos dispendioso - que outros plantios que demandam a inserção de uma muda após a outra. Outro dado interessante é que quase todos os grandes mamíferos essencialmente herbívoros são oriundos da Eurásia e do norte da África, vamos recordar: os cinco principais, que são ovelha, cabra, vaca, porco e cavalo; e os coadjuvantes que são o camelo, dromedário, jumento (que cruzando com o cavalo gera o burro), a rena, o búfalo, o iaque, o gado de Bali e o mithan. As exceções são somente a lhama e a alpaca, do nosso continente. Vejam que estes grandes animais podem, conforme a especificidade de cada um, ofertar carne, leite, esterco, lã, pele, pelos, montaria, e também força de trabalho. Esta força de trabalho, como por exemplo no ato de arar a terra, poupa trabalho humano. O esterco, acaba por adubar a terra para o plantio, garantindo produção e diminuindo o tempo necessário do pousio. Sendo assim, era possível produzir excedentes de alimentos, permitindo que parte da população pudesse se dedicar a outras coisas, como inventar novas ferramentas, novos conhecimentos, etc. Com a metalurgia, pode-se produzir melhores armas para a defesa e ataque, assim como ferramentas de trabalho mais eficientes (enxada, faca, machado, alicate, garfo, etc). Deste modo, estas sociedades adiantadas puderam se especializar cada vez mais, tornarem-se cada vez mais complexas, por isso todas as grandes civilizações que estudamos são ou do norte da África (Egito) ou da Eurásia, pela simples sorte de ter presente estes grandes animais mais facilmente domesticáveis. E os germes, através do contato íntimo com estes animais, através do bom e velho darwinismo selecionou naturalmente os mais resistentes. Ou seja, os europeus aqui diante de nossos ameríndios tinham vantagem bélica e epidemiológica.

O autor ainda disserta sobre o caso africano (explicando por que a África do Sul floresceu na parte subsaariana do continente, desmistificando os nazistas que cismam em dizer "é porque lá a população branca foi relativamente numerosa") e suas experiências na Nova Guiné, onde surgiu o questionamento "Por que vocês [estadunidenses] são tão evoluídos tecnologicamente, e nós [da Nova Guiné] tão pouco evoluídos". E por experiência, uma verdadeira convivência com os nativos, ele sabia que os guineenses eram tão inteligentes ou até mais que os habitantes do norte, logo ele não aceitava explicações mesquinhas como as do tipo "altas latitudes estimulam mais o cérebro", "a raça branca é superior", ou outras bobagens.

É bom lembrar que o livro possui mais de 450 páginas, portanto difícil de se resumir sua essência em poucas palavras. O que posso dizer é que é um livro ótimo, não só porque dá um pau no complexo rol de teorias rasteiras, mas também samba na cara do positivismo na ciência por mostrar com a Biologia e a História, com o substrato geográfico, podem se ajudar e se enriquecer mutuamente. Jared Diamond passou a ser, para mim, um dos intelectuais mais admiráveis que li devido ao seu ecletismo, coerência, e senso de humor também. Taí um livro obrigatório para quem quer se tornar um pouquinho mais inteligente.


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