Esperanto? Como? Por que?

30/10/2012 13:50

O esperanto é um idioma bastante presente na minha vida, fato que surpreende algumas pessoas. Alguns perguntam o que é. Outros perguntam a utilidade do aprendizado. Outros perguntam o que ganho com isso, já que se trata de um idioma que pouco ou nada agrega valor ao curriculum vitae pois, por não possuir um estado que o sustente (aliás não é língua de país algum, povo algum, nada!), também não existe demanda para seu aprendizado como seria o seguinte caso: "Vixe, a Esperantolândia está precisando de engenheiro quântico estelar, estão pagando bem, lá não tem mão de obra... Se eu soubesse esperanto, nooooosssssaaaa...". É,  não se trata de uma demanda ditada pelo mercado!

Pois bem, às vezes contar nossa experiência ajuda e contextualiza. Quem me conhece, sabe que tenho sede de aprendizado. Aprendi a ler não porque se ensinava na escola, mas sim de tanto encher o saco de um tio para me ensinar, e a assim com 4 anos eu já lia (escrever é outra história, demorou um pouco mais). Em casa eu tinha algumas enciclopédias, onde sempre que podia lia alguns verbetes. Em 1996 adquirimos o primeiro computador de casa, sendo que o meu pai perguntou: "O que vocês preferem para agora? Impressora ou multimídia?". Não me lembro da opinião do meu irmão, mas convictamente optei pela multimídia, já pensando em inserir CD-ROM, estes não só de jogos mas também as muitas enciclopédias já disponíveis no formato. Até que em 1999 instalamos internet, e explodi de alegria: era um acesso "infinito" para o conhecimento, apesar das limitações da época frente agora.

E assim, procurando mais conhecimento na rede mundial de computadores, encontrei sites de aprendizado de idiomas, a maioria pagos, ou então páginas estáticas e mal diagramadas, e eu gostava de tudo mesmo assim: italiano, inglês, espanhol, e por aí vai. Também procurava aprender algo de HTML e confecção de páginas no geral (publiquei minha primeira homepage em 1999 mesmo, feita no Bloco de Notas). Na época eu tinha, além do período matutino, um ou dois dias de aula a tarde no período vespertino. As tardes eram completadas com o Kumon, um curso de ensino individualizado de matemática oriundo do Japão. Minhas noites eram preenchidas por alguma atividade física (academia, aikido, depende da época) e as obrigações da escola. Portanto, simplesmente não tinha tempo para fazer mais nada extracurricular, restando meus estudos nada sistemáticos na internet.

Numa dessas buscas, em 2001, em um fórum sobre língua japonesa (nessa época eu treinava aikido, e pesquisava vários termos ditos em cima do tatami), um brasileiro se anunciava como falante de português, inglês e esperanto. "ESPERANTO? Suspeito que seja o nome de um dialeto da Bélgica". Na época o Google não era como é hoje, mas acabei pesquisando em outros motores de busca como o Cadê?, o Sapo.pt, o Yahoo!, o Aeiou.pt... e descobri que se trata de uma língua de nenhum país, com a pretensão de ser uma língua ponte para todos, e que foi planejada de modo a ser regular. Alguém acha que me apaixonei por esta chamada "idéia interna" do esperanto? NÃO! Eu até achei boa, mas a primeira vista pensei "Legal, uma língua fácil e que ninguém fala, eu e meus amigos poderemos aprendê-la e ela será nossa língua secreta!". E fui aprendendo descompromissadamente, desacreditadamente, até descobrir que a língua não seria tão secreta assim: Já havia conhecido pelo menos 20 pessoas pela internet que falavam a língua; descobri a existência do canal #esperanto da então maior rede brasileira de IRC (Internet Relay Chat), a BrasIRC; O bate-papo do portal Terra, na época badaladíssimo, menos acessado somente que o do UOL, passou a disponibilizar uma sala somente para o esperanto; O UOL, por sua vez, disponibilizou um fórum de discussão (assíncrono) sobre o idioma; e aí, quando percebi, já estava em umas seis listas de discussão por e-mail relacionadas à língua. Depois, ano a ano, vieram as revistas, filiações à Liga Brasileira de Esperanto e J uventude Esperantista Brasileira , congressos com centenas de pessoas, livros originais e traduzidos... não parei mais. De tantas relações interpessoais que tive através do idioma, posso dizer que o aprendizado do esperanto foi um marco na minha vida.

Aprendi na prática que o esperanto não é uma língua inútil. Trata-se de uma língua planejada a posteriori, democrática no sentido de ser relativamente equidistante às línguas nacionais, com uma gramática lógica e regular, tão flexível que a torna capaz de expressar sutilezas de nosso pensamento, e o melhor de tudo: pronúncia 100% fonética. Portanto, um instrumento excelente para o alcance da democracia linguística. Com ela, passei a me interessar mais por cultura, mas não só a cultura mcdonaldizada dos filmes hollywoodianos, mas também culturas de países cujas obras literárias não são traduzidas na nossa língua portuguesa através do inglês, porque nem mesmo são traduzidas na língua inglesa mas estão disponíveis em esperanto, como acontece com muita coisa da Letônia, Lituânia, Eslováquia, República Tcheca, Vietnã...

Aprendendo uma língua fácil (talvez seja imprudente dizer que existe uma língua fácil, já que a apreensão de um idioma é sempre difícil, digamos então que "menos difícil"), desbloqueamos nosso cérebro para o pensamento fora de nosso idioma materno, adquirindo confiança para aprendermos outros. Foi aí que aprendi espanhol sem fazer aulas, e assim a autoconfiança aumenta mais e mais, coisa que nunca consegui tendo aula de inglês na escola desde a pré-escola com adição a pelo menos três anos de escolas de idiomas.

Em 2010 fui ao Congresso Mundial de Esperanto em Havana, Cuba, onde havia uma comissão que aplica exames de esperanto nos níveis B1, B2 e C1 segundo o Marco Comum Europeu de Referência em Idiomas (Common European Framework of Reference for Languages - CEFR), e a instituição certificadora seria a Universidade de Budapeste (Eötvos Loránd Tudományegyetem). Fazendo o exame para o C1, soube que na Europa ter certificados desta escala CEFR é pré-requisito para se graduar e/ou para entrar em um programa de pós-graduação, e pela facilidade do esperanto as pessoas têm o procurado bastante, principalmente na Hungria, para adquirir este certificado ou até mesmo para prestar o exame correspondente ao nosso vestibular já que o esperanto é uma das opções de proficiência em línguas.

Reconhecendo o potencial do esperanto, o Senado aqui no Brasil aprovou o PL 6.162, que altera na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) um artigo, fazendo permitir o ensino do esperanto como matéria optativa no Ensino Médio, ajustando a LDB para as duas resoluções da UNESCO de apoio ao esperanto, as quais o Brasil assinou. Para que a LDB seja alterada de fato, falta a aprovação da Câmara dos Deputados.

Concluindo, o esperanto é uma língua em prol da democracia linguística, pela facilidade do entendimento, pelo internacionalismo verdadeiro - não o internacionalismo burguês dos balcões dos hotéis e aeroportos, cujo timoneiro é a língua do país politicamente mais poderoso - portanto anti-imperialista. No entanto, quando algo questionador se fortalece, a tendência é o status quo apropriar-se dele: está aí acima dois exemplos iniciativas de Estados o reconhecendo, mas eu poderia também dar o exemplo do tradutor do Google, do programa de pós-graduação em Interlinguística da Universidade de Posznán (Adam Mickiewitz), e vários outros de âmbito estatal ou privado, fruto do reconhecimento do potencial do esperanto através do mais puro pragmatismo, o de que há público falante e o de que há utilidade da língua na dinâmica internacional inclusive no tocante de economizar gastos com traduções ou até mesmo com o aprendizado em si. É muito mais barato bancar o aprendizado de uma língua fácil do que o de uma língua difícil! Ou alguém com DOIS DEDOS DE TESTA acha, por exemplo, que com a ascensão chinesa acompanhada da promoção do chinês mandarim a comunicação vai se dar facilmente nos "negócios da China"? Que alguém vai ser corajoso em assinar papéis cheios de ideogramas? Que o aprendizado de uma língua tonal é fácil e barato? Pois é, mas estão querendo nos fazer achar que sim, os cursos de chinês se multiplicaram e todas estão dizendo "aprenda chinês, você consegue", sendo que - independentemente de conseguir ou não - vai pagar a mensalidade. É a mercantilização dos idiomas, vendidos como "a saída para o desemprego", "a garantia de salários gordos", como se esta fosse a alforria eterna do chamado exército de reserva, como se não existisse desempregados e até miseráveis nos países que falam tais línguas bem quistas pelo mercado. Ou, pior ainda, como se uma língua nacional pudesse ter - democrática e satisfatoriamente - um papel de língua mundial. Não tem! Enquanto você DEVE dividir seu tempo de estudo da sua área de atuação com o da pretensa língua universal; enquanto seu concorrente, que mora no país cuja língua oficial é esta pretensa língua universal, é seu falante nativo! É como seu time de baseball tivesse um rebatedor com bastão muito menor do que o normal. E por fim, ter que admitir que existem línguas étnicas melhores e piores como verdades universais, o que para mim é um imenso absurdo.

Para mim, uma verdade é a seguinte: língua com o epíteto de "universal", "internacional", "transnacional", "ponte", ou o que quer que seja, para ser democrática não deve ser oficial de país algum, e para ser viável deve ter a fonética e as regras gramaticais regulares. Neste sentido, face o reconhecimento frente às outras línguas planejadas com o mesmo objetivo (ido, interlíngua [IALA], novial, latino sin flexione, etc), o esperanto é imbatível. E as outras línguas, as nacionais e étnicas? Continuam valendo a pena de ser aprendidas, voluntariamente, como nacionais e étnicas, nunca como "universais". O inglês aprendido não como língua universal imposta pelo poderio estadunidense desde o fim da Segunda Guerra Mundial, mas como língua de determinados povos, do rock, do blues, do jazz. O chinês mandarim não como língua dos executivos asiáticos da forte economia chinesa, mas como língua do povo do wushu, do tai chi, da acupuntura, da massoterapia, dos pratos agridoces, dos conhecimentos milenares. E por aí vai! Aí sim teríamos um caviar cultural linguístico com pluralidade. No entanto, o que vejo em congressos internacionais (não nos de esperanto, é claro) é falantes nativos do inglês com evidente vantagem no gogó (mas não necessariamente na competência), enquanto a imensidão dos falantes de outras línguas tentam se entender em vão através de gestos e de aparelhos de tradução simultânea, que na prática não funcionam. Ou estou mentindo?  


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