Meu primeiro 15 de outubro como professor de carreira: impressões de um debutante.

15/10/2014 00:05

Ainda no meio da graduação em Geografia, eu tinha decidido: "Serei professor!". Mesmo que não fosse minha ocupação principal, e mesmo sem saber onde atuaria, se na educação básica, técnica, superior ou cursinhos preparatórios, o que eu sabia é que lecionaria.

Por diversos desvios em minha vida, acabei por protelar esta atuação por mais de quatro anos depois de formado, quando muitos dos meus colegas de profissão já começam a atuar ainda quando graduandos. Portanto, para quem não percebeu a partir da leitura do título, deixo claro aqui que não sou um docente experiente. Pelo contrário, aliás, mas não significa que eu não tenha aprendido e apreendido algo nestes meus pouco mais de 7 meses de docência. Escrevo este texto para dar meu depoimento e ajudar, quem sabe, aos que estão onde já estive porém hesitam por diversos motivos.

Passei por uma crise de utilidade ainda antes de finalizar meu chamado "estágio probatório" como servidor técnico-administrativo da educação federal. Foram anos mexendo com os mais diversos papéis, documentos, materiais e carimbos. Eu sentia que poderia fazer mais por mim e pela sociedade, invejava alguns professores da casa por poderem falar dos temas que gostam com seus alunos em sala de aula enquanto eu ficava "enfurnado" em um setor, me lembrava dos cursos de extensão que dei na minha então universidade. O auge do stress foi pouco depois que mudei de setor (necessitando sair da zona de conforto em que eu estava), o que veio junto com mudança de direção do campus (mais mudanças), de reitoria (ainda mais mudanças), e por ter começado outro curso superior (olá, mudanças!) também mudei de horário de trabalho (oi, alguém já falou de mudanças?). Por também ter sido eleito diretor sindical, havia mais atividades, e como tal me sentia como se militasse algemado e com os pés amarrados. Não estava nem um bom servidor, nem um bom sindicalista, menos ainda um bom estudante. Não via perspectivas satisfatórias em minha vida, e não me imaginava décadas depois eu mais velhinho dizendo "oi, meu nome é Felipe e tenho 28 anos de casa, daqui a pouco me aposento". Aliás isso me desesperava. Foi aí que decidi tentar ser professor.

Dificuldades à parte, já que eu era um relativamente véio porém inexperiente, e certamente enferrujado, decidi prestar os dois concursos que caíram no meu colo - Estado de São Paulo e Prefeitura de Praia Grande - nos quais (não me perguntem a razão!) fui muito bem colocado. E aí, começa a saga!

Primeiramente, as pessoas mais próximas ponderam contra nossa decisão de assumir: "Você está louco? Já está em um emprego público, estabilizado!". "Tem tanto professor se adoecendo, e procurando um concurso de administrativo, e você querendo fazer o caminho inverso?". "Eu li no jornal hoje que uma professora foi violentada por alunos". "Hoje pra ser professor tem que ser muito corajoso". "Mas você é tão inteligente, preste outro concurso, sei lá, um INSS". "Por quê você não pensa em atuar como geógrafo, bacharel mesmo?"... etc etc.

Em segundo lugar, assumir os concursos - pelo menos pra mim - foi uma maratona de teste para cardíacos. Os dois concursos me chamaram muito perto um do outro, porém adotavam procedimentos bem diferentes. Para mim, que pensava em acumular os dois cargos (o que de fato fiz por três semanas, vide aqui), a coisa se complicava demais pois pela minha experiência NINGUÉM está preparado quando um candidato está para assumir dois concursos, o que não ocorre quando está para assumir apenas um tendo já outro cargo público ou não. Minha parca experiência no Estado está relativamente bem documentada aqui neste blog, então relatarei somente o que houve na prefeitura entre a aventura de assumir o cargo e dar o primeiro dia de aula:

  1. Houve uma bateria de exames, assim como houve algo parecido no Estado, havendo distinções, como os exames de coluna. O médico-perito que me atendeu, falou que eu tinha uma leve escoliose, "nada que atrapalhe a execução do seu trabalho, mas você precisa de um novo laudo afirmando isso". Oras, ele mesmo não é médico, e já não falou que não impediria meu trabalho? Então por quê um novo laudo? Pois bem, marco um ortopedista, levo os raios X, ele olha, me examina, e diz "Você tem essa escoliose desde os 12 anos mais ou menos, talvez tenha sido inclusive por causa da má qualidade das carteiras escolares. É engraçado, a escola estraga nossas colunas, mas aí pra ser professor te postulam uma coluna perfeita". Correndo, esbaforido, marco a entrega disso tudo no setor responsável, no dia seguinte vou para lá (30km de ônibus coletivo!) e me dizem "Não, você não marcou nada! Quer marcar amanhã?". Respondi "meu filho, eu marquei HOJE, meu prazo está vencendo, me arranquei de Santos até aqui, me exonerei de um concurso para assumir aqui, quero só ver quem será o responsável se eu perder o prazo". Contrariado, desmarquei o outro compromisso que eu tinha no dia seguinte (que era inclusive na escola estadual) e lá fui, chegando 10 minutos atrasado, e era de manhã. "O médico já foi embora, não vem mais hoje.". Imaginem meu desespero... Era manhã tenra ainda, qual horário esse médico teria? Eu respirei, me controlei, e falei "Tudo bem, tenho até amanhã somente para assumir o concurso e vocês estão me impedindo, sendo que moro longe, não sou rico, e tive que largar outro emprego. Não estou vendo escala de horário de ninguém de maneira acessível aqui, e isso é Lei de Acesso à Informação até onde eu sei. Posso até não assumir o cargo, mas agora também vou querer ver horário de todo o mundo, porque é um absurdo esta sala estar cheia de gente pra ser atendida, o médico não estar depois de 10 minutos do que foi marcado, porém na semana passada cheguei com antecedência e tive que amargar aqui duas horas. E tudo isso por causa de um leve desvio de coluna que vocês mesmo falaram que não teria problemas, mas estão me impedindo de assumir meu cargo, e deixando alunos sem aulas. Vou esperar lá fora uma hora, se nada estiver resolvido chamo imprensa e movo a justiça, já que ontem tive que fazer um protocolo por vocês terem marcado um horário comigo por telefone, para eu vir e vocês falarem que não marquei nada. Aí então a gente já vê tudo, até quebra de sigilo telefônico e tudo o mais". Curiosamente, em meia hora fui atendido, e em menos de um minuto, aprovado pelo setor médico.
  2. Assumido o cargo, depois de andar muito de um setor para outro, muito mesmo, sem comer e tendo acordado as 5 da manhã, recebo um papel: "Entrega lá na escola e aí você começa amanhã". Não sabia se primeiro comia, ou se primeiro entregava o referido documento. Escolhida a segunda opção, fui à escola. "Professor, os alunos estão em intervalo, aqui estão os livros, em 5 minutos você entra, você tem três sextos anos para hoje.". Em vão argumentei que não esperava começar naquela hora, que não havia preparado aula alguma, que estava esgotado com todo o processo de posse... "Confiamos no seu trabalho e na sua capacidade de improvisar, professor.". Professor... Pois bem, lá fui eu, três aulas com fome, improvisando, para crianças e pré-adolescentes entre 10 e 15 anos, todos ativos, querendo ir ao banheiro e tomar água ao mesmo tempo, gritando, perguntando pela antiga professora, etc etc. Só imaginem. Uma das classes simplesmente não me deixaram dar aulas, tamanha a indisciplina. Me frustrei, me enervei, mas também fiquei satisfeito e ri de alguns momentos. Saí cansado, estafado em um dia chuvoso e engarrafado, porém feliz tão somente por ter assumido o cargo.

O que pude constatar, falando das coisas boas, é que dar aula é gratificante. Não tem preço quando os estudantes me param na rua para me cumprimentar do jeito deles, alguns mais tímidos e outros mais despojados, não importa como. É muito bom ter reconhecimento de gente com todo o futuro pela frente, com 15, 16, 17, 18 anos a menos que eu. É extremamente reconfortante quando um aluno olha pra gente surpreso e diz "Ahhh, agora entendi!". É muito bom quando adolescentes falam "O senhor é da hora! Por que o senhor não dá aula pra gente?". Vou para minha casa com o dever cumprido quando um aluno ou aluna vem e me pergunta coisas para além do que dou aula, pede sugestões de leitura. E mais, mesmo sem gostar do gênero musical, e nunca cogitar fazer isso na vida (e de fato não o fiz), fiquei satisfeito quando certos estudantes de um oitavo ano, dançando na rua, me chamaram para que eu dançasse com eles o tal passinho do romano: "Professor, é assim e assim, dança com a gente, a gente coloca no Youtube". Ou ainda um singelo "Feliz dia dos professores!", alguns até acompanhados com algum presentinho. São essas e outras coisas que fazem um professor ou uma professora seguir em frente nas dificuldades do que é ser professor hoje em dia. Costumo falar com meus alunos: "Podem apostar, estou aqui porque gosto. Porque se for por dinheiro, não valeria a pena, eu faria outra coisa. Portanto nunca, nunca mesmo, estressem e desiludam um professor, pois a aula fica horrível, e ele se desencanta da profissão".

E é sobre isso o que quero falar, também, certos desencantos. Não posso negar que, nestes poucos meses de lide docente, me desiludi com muitas coisas. A começar, que é quase inexistente a solidariedade de classe entre professores,  que dificulta em muito as coisas. O salário, onde quer que seja, sempre é aquém para um profissional que tem uma rotina estressante frente a tanta indisciplina e afrontamentos, e necessariamente tem de levar trabalho para casa pelos mais variados motivos. A culpabilização ao professor pelo insucesso dos alunos é sempre alta, se não por parte de coordenadores e diretores (como ocorre comigo, ainda bem!), é pelas secretarias da educação; se não é por estas, é pelos governos; se não é por estes, é com toda a certeza pela sociedade como um todo.


O desinteresse por parte dos alunos é algo generalizado, a começar porque - nativos digitais como são - para eles é enfadonho escutarem um professor sem qualquer estímulo eletroeletrônico de sons, luzes, cores e efeitos. Aprendi nas aulas de Psicologia da Educação que as aulas de cada professor tem em média uma duração de 50 minutos porque este seria um prazo máximo que os alunos estariam dispostos a prestarem atenção em um mesmo tema, uma mesma coisa; contudo hoje, existindo mecanismos em que se possa fazer três, quatro coisas ao mesmo tempo, em que impera os dispositivos chamados "multitarefas" dado que um aluno no computador escuta música, digita um texto, acessa a internet, conversa com um colega, joga Perguntados e brinca com o Pou ao mesmo tempo, suspeito que este tempo se achatou muito, pois os alunos querem ação, e não somente serem espectadores desta ação: almejam ser principalmente protagonistas destas. Adicionem o fato de que hoje, pelos novos tempos não conseguirem permitir devido aos diversos perigos da cidade grande, as crianças quase não brincam mais nas ruas, não gastam energia o suficiente, portanto quando vão à escola - um ambiente com muitos de sua idade, e com a ausência dos pais - surgem neles uma vontade de insurgirem neles a criança reprimida: brincar, brincar muito, correr, sair, mesmo que isto signifique desrespeitar os professores. Este comportamento reverbera na adolescência também. E em alguns casos, a coisa descamba para a violência, na maior parte das vezes circunscrita entre estudantes mesmo, mas são crescentes os casos entre alunos e professores dada a desumanização de nossa sociedade.

Nossa Pedagogia, por outro lado, muitas vezes  não considera o funcionamento do cérebro para formular suas teorias e teses, fica presa à forma da aula sem considerar que é fundamental para os estudantes adquirirem postura autodidata (sim!) e darem importância às tarefas de casa como bem aborda Pierluiggi Piazzi em seus livros sobre inteligência. Cada vez mais teóricos que nunca pisaram em sala de aula recriam um arremedo de socioconstrutivismo sem lerem os originais desta teoria (os quais na minha opinião são ótimos), e desandam a discutir numa diarreia mental: "Competências ou habilidades?"; "E a avaliação diagnóstica?"; "Ele está no nono ano e vai mal na ortografia, mas não é pra corrigir, o que importa é a ideia que ele colocou no papel, quando ele estiver pronto ele mesmo perceberá que é errado"; "Ele reprovou, mas fez uma provinha que só cai poucas questões de português e matemática, e foi promovido ao ano seguinte"; etc etc etc. Alguém avisa que muitos professores não estão conseguindo dar uma aula, mesmo quando a intenção é dá-la de maneira dialógica como é meu caso, justamente por ser, deliberada ou ideliberadamente oprimido? Que uma coisa é cortar os excessos de conteúdos, outra é cortar exatamente TODOS os conteúdos? Que o grosso da discussão é inócua enquanto, na minha matéria, alunos de oitavos anos não sabem localizar o Brasil (!!!) em um mapa-múndi, nem seu estado no Brasil, coisa que não é 'conteudismo' mas sim algo BÁSICO para a compreensão de mundo por parte de cada um??

Coloque também na conta os baixos salários, o tempo que os pais não se dedicam aos próprios filhos (alguns chegam até a afirmar que a educação é tarefa exclusiva da escola, quando um professor tem dezenas de alunos - cada um com uma especificidade - por 50 minutos em média), a cobrança pelo conteúdo conjugada pela necessidade de controlar a indisciplina crescente, etc. Portanto, é cada vez maior o contingente de professores que se desencantam e largam a profissão. Numa sociedade altamente competitiva e consumista, em que os alunos (principalmente os da periferia) sabem mais do que ninguém que valorização e remuneração não possuem qualquer relação com o nível de escolaridade, não se enxerga facilmente motivos para se estudar: e isto se alonga ao ensino superior e à produção de ciência, vide os valores indecorosos das bolsas de iniciação científica, de mestrado, e de doutorado. E aí, digo que uma paixão pode acabar, pode ser maculada e terminada. Pessoalmente não sei dizer qual lado - se a frustração, se a autorrealização - está ganhando na minha psiquê com relação à docência na educação básica. Mas afirmo pelo meu empirismo de ter terminado meu ensino médio em 2001 e nunca ter tido parado de estudar em instituições oficiais de ensino: nossa educação está piorando, e o baque na sociedade vai ser grande caso não abrirmos os olhos. E acho bom meus colegas saberem onde estão pisando, e mais, que estejam dispostos a mudar a conjuntura e a estrutura. Portanto, por necessidade à nossa classe: FELIZ DIA DOS PROFESSORES.

OBS.: A maioria das figuras foram retiradas da página Multiversos da Palavra, do Facebook. Fica aqui meu agradecimento à página.


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